Confesso que achei meio bizarro em princípio. Me senti vendo um filme de produção independente daqueles que o pessoal cultua nos “cines belas artes” da vida. Contudo, é impossível assistí-lo sem se cativar com o seu roteiro e a forma como ele é levado, sobretudo pela ótima atuação do Selton Mello que, aqui, foge dos clichês habituais de seus papéis.
A história fala da vida de Lourenço, espécie de colecionador, comprador e vendedor de antiguidades e objetos estranhos. Interessante que, embora mencione algo sobre vendas, não me recordo de tê-lo visto vendendo um objeto sequer… Ele é um sujeito introspectivo, seco, sarcárstico e irônico. Aliás, o seu sarcasmo e arrogância chegam a irritar (o que dá uma realidade absurda ao seu personagem) e nos leva a imaginar qual será o destino trágico de sua história.
Além disso é de extrema frieza, justificável por ele mesmo como essencial ao seu empreendimento – “não podemos nos apegar aos sentimentos neste ramo. A vida é dura”.
Acredita que tudo é “comprável” (resolve “montar” seu próprio pai revelando uma nuância de carência afetiva em seu personagem cheio de defeitos) e isso é o retrato de todo o filme: nada tem identidade própria, tanto que, as pessoas são identificadas pelos objetos que tentam vender (um relógio, um violino, um olho de vidro…) ou pelas manias ou lugares comuns que ocupam (a drogada, o segurança…). Aqui podemos traçar um paralelo com o excelente “Todos os Nomes” de Saramago. Como no livro do escritor português, apenas o personagem principal é nominado mesmo este se relacionando com inúmeras figuras no decorrer da trama (da mesma forma que o Sr. José, de “Todos os Nomes” que lida com os papéis “dos vivos” e dos “mortos” mas sem dar-lhes nomes).
É em torno de sua obsessão por compra que gira a trama principal: Lourenço se apaixona (?) pela bunda da garçonete de um boteco e acaba frequentando o estabelecimento todos os dias pensando em como conquistá-la (a bunda, não a moça). Na verdade conquistar não é o termo correto, seus pensamentos remetem a “como comprar a bunda?”.
Os personagens são tão descaracterizados de suas funções vitais e sentimentos que chegamos ao cúmulo de, em uma cena, Lourenço pedir desculpas por ter ofendido a moça da bunda mas acaba falando com a garçonete errada (e ele lá se lembra da cara ou dos olhares da moça? ele lembra é da bunda – pede, inclusive, para a garçonete em questão dar uma giradinha para ter certeza de que não é a dona da bunda que o está deixando obcecado).
Finalmente, temos o ralo e o seu cheiro. Ao lado do escritório em que trabalha, há um banheiro com problemas no ralo que gera um odor insuportável (aqui sentimos uma certa textura no longa que nos aproxima de praticamente sentir o quão fétido é o ambiente). Odor que vai ganhando uma importância absurda, como se Lourenço fosse ao longo da trama percebendo a podridão de seu caráter e justificasse isso no cheiro forte que o perturbava. É interessante notar, porém, o paradoxo em que ele se encontra quando percebe que o odor é de suas próprias fezes (é o cheiro que o transforma em um mau caráter ou o seu mau caratismo gera o odor?).
É notável e interessantíssimo também, como Lourenço vai se sensibilizando ao longo do enredo depois que percebe a falta que a bunda lhe faz. Seu choro final inicia uma espécie de pedido de perdão por sua frieza com o ser humano. Por outro lado, após sua última conquista, ficamos com a dúvida se ele continuará o processo de humanização ou se haverão outras bundas por aí.
Infelizmente (ou não!) devemos imaginar a resposta…
Adorei o filme, resposta ao meu post sobre receitas prontas do cinema nacional: conseguimos fazer filmes bons com pouco orçamento e sem seguir a fórmula básica já citada por mim. Parabéns ao Selton Mello que acreditou no livro e o transformou em um filme de bom contexto psicológico.
A seguir, o trailer para quem quiser saber mais…



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