Terça-feira passada, infelizmente chegou ao fim, pelo menos neste ano, a 1a temporada da minissérie 9mm São Paulo.

Infelizmente porque foi um projeto raro – para não dizer único – na TV brasileira: atores novos e boas atuações; coragem no roteiro; fotografia e montagem originais, direção primorosa, trilha sonora adequada ao tema, enfim, o que nos resta mesmo é torcer para que haja mesmo uma 2a temporada, no ano que vem (ainda não houve anúncio da FOX sobre este assunto apesar de cogitarem extra-oficialmente novos episódios para 2009).

Enquanto esperamos, vamos falar sobre o último capítulo.

O FIO PRINCIPAL: CHACINA, PCC, TRANSPORTE CLANDESTINO

Este foi o episódio de trama mais fraquinha, infelizmente. Não que a idéia fosse ruim, não foi: falar de chacina é totalmente apropriado e associá-la às linhas de lotações clandestinas “gerenciadas” por facções criminosas (e até citaram o PCC) é algo corajoso e bem atual.

O problema não foi o fio central mas como ele foi conduzido: fiquei com a sensação de que devido à limitação de prazo – por ser o último capítulo; e talvez até uma limitação financeira, os roteiristas se perderam um pouco na tentativa de amarrar muitos nós e criar algumas deixas para uma provável próxima temporada.

Assim, fiquei com a sensação de que tudo se passou de forma muito rápida e isso prejudicou não só o crime principal mas também as demais histórias paralelas que dão vida própria a 9mm.

Vamos a algumas delas, senão todas:

TRABALHO x FAMILIA (Luísa e Dani)

O problema da mãe totalmente devota ao trabalho que não cria a filha teve seu desfecho provisório: Dani aparece com seu – hipoteticamente – novo namorado e “comunica” que está indo para Londres com ele, por um mês. A mãe mal se despede da filha já que seu celular toca no exato momento da sua partida.

Interessante para notar a frieza da relação das duas. Mas, assim como no capítulo anterior, volto a criticar a superficialidade do roteiro e a forma como soou forçada essa alternativa para deixar Dani de fora por um tempo (não entendi o porquê, mas enfim…). Outra coisa que não colou: o ex-namorado drogado de Dani não apareceu mais (e havia sido criado um “gancho” para este aparecimento anteriormente) e o “trauma” de Dani ter assistido a um crime violento e parecer nem se lembrar…

Aliás, não sou contra este tipo de “gancho” que serve até para “testar” os fãs e “direcionar” o seriado para esta ou aquela opção. O problema é que alguns ganchos têm ficado perdidos na trama, sem nexo algum; a impressão que fica é que um episódio está bem distante do outro no tempo… mas se isso for verdade, por que algumas outras pontas ou elos permanecem recentes? Acredito que há um problema ao traçar a cronologia de todos os personagens e suas respectivas realidades.

INVEJA E ÉTICA (Luísa x Horácio)

A investigadora continua obcecada por provar a culpa do parceiro em um crime cometido no episódio 1. Movida por sua própria ética e princípios, age como juíza da situação, tentando punir o justiceiro como que para provar-lhe que seus métodos e meios são equivocados.

Ponto para a série: repare como a ética de ambos entra em conflito: um justiceiro solitário que age de forma violência e passional em todas as suas decisões afim de chegar ao seu objetivo versus uma policial extremamente perfeccionista e dedicada ao trabalho mas que não deixa de usar de meios duvidosos para colocar seu parceiro em apuros (como quando coloca a corregedoria em seu caminho, desobedecendo o seu chefe Eduardo). Ambos buscam justiça e se movem seguindo sua própria ética, distinta e ambígua. Todo esse conflito psicológico fica mais evidente ainda quando Eduardo coloca ambos para trabalharem em conjunto na procura de um dos suspeitos da chacina.

Este conflito iminente tende a se intensificar e deixa um gancho que pode ser muito bem aproveitado no futuro. Repare como é algo indireto, sutil, ao contrário de algumas deixas que nos são forçadas goela abaixo…

9MM: A VERDADE ESTÁ LÁ FORA?

Eduardo está em apuros: como previsto, o clima entre ele sua noiva e seu sogro esquentou. Mais uma vez parece que o tempo passou um pouquinho “a mais”: presenciamos o término entre eles e as ações do ex-sogro para atrapalhá-lo e provar-lhe que a meritocracia não existe (essa discussão entre eles ocorreu no episódio 3). Interessante que parece não haver um interesse político ou algo a mais (posso estar enganado, fato!) mas aparentemente, o deputado busca apenas uma vingança pessoal, uma exibição gratuita de poder contra aquele que o confrontou no campo das idéias.

O melhor porém ficou para as últimas cenas onde percebemos a série flertando com uma fórmula que ficou bem famosa com David Duchovny e Gillian Anderson em Arquivo X (estariam eles aproveitando o marketing da estréia do segundo longa metragem da série? =P).

Se você imaginou algo como extraterrestres ou eventos paranormais, você se enganou, redondamente.

Se você pensou em toda a “Teoria da Conspiração” que seguiu Mulder e Scully em suas aventuras, acertou. O flerte já existia desde o começo quando a relação de Eduardo com o deputado lembrava o de Mulder com um certo senador que o protegia. Contudo, isso ficou mais evidente quando em determinado momento Mulder, ops, Eduardo, é “convidado” a entrar no carro de uma pessoa que acaba sendo essencial ao lhe aconselhar sobre como proceder para desvendar a chacina. Não dá para saber se é um vilão ou mocinho, da mesma forma que tínhamos “O Homem das Unhas Bem Feitas” e o “Canceroso”, em Arquivo X.

Está opção de roteiro tem prós e contras. É caminhar no limiar, entre a cruz e a espada: entre o instigante processo de dúvida sobre o informante (que deixa um ar de suspense incessante pela trama) e a frustrante sensação de Deus ex machina – é quando a “mão de Deus” resolve as coisas, tornado a vida do roteirista/escritor muito mais fácil; esta solução era muito usada na literatura da Idade Média, onde o desfecho era sempre causado por uma “força inexplicável”. A pequena amostra em 9mm ainda é positiva, mas temo muito por este caminho nada fácil de trilhar.

CONEXÃO ENTRE EPISÓDIOS

Se considerarmos o desenvolvimento dos personagens em uma série, acredito que podemos classificá-la da seguinte maneira:

- Séries Casuais: são aquelas onde não há conexão de um capítulo a outro, ou seja, não importa se eu assistir na sequência ou de forma aleatória. Todas ou quase todas (não me lembro de alguma exceção agora) as séries Globais seguiram esta linha e preferiram criar capítulos independentes – é como se os personagens sempre estivessem começando “do zero”. Esta linha é defendida pelos espectadores casuais. Exemplos: Os Normais e Super Máquina.

- Séries Amarradas: são aquelas onde há conexão e ordem cronológica de fatos e capítulos, nela os personagens seguem uma linha de desenvolvimento e evoluem, carregando consigo marcas, sentimentos e recordações. Contudo, se assistirmos a um episódio aleatório, não ficaremos perdidos ou confusos, conseguiremos acompanhar a trama mas obviamente não capturaremos todas as nuâncias das personalidades de seus protagonistas. Esta linha pode ser seguida por espectadores casuais e fãs. Exemplos: Arquivo X, CSI (entenderemos a trama mas não enxergaremos tudo que um Mulder, uma Scully ou um Grissom tem “a oferecer”)

- Séries Fortemente-Amarradas: são aquelas onde há uma forte conexão e a ordem cronológica é importante. Neste caso, assistir a um episódio aleatório pode levar a total confusão sobre trama e personagens. Esta linha não pode ser seguida por espectadores casuais, são séries onde o nicho é o de aficcionados. Acho que Lost e Twin Peaks são ótimos exemplos.

Acredito que 9mm deva se encaixar na definição de “série amarrada”, até porque não faria sentido “esquecer” os acontecimentos em uma série totalmente centrada nos protagonistas. Porém, já havia notado alguns problemas nesta continuidade. Algumas “sugestões” e “insinuações” ficaram pendentes e foram sim esquecidas nos episódios subseqüentes. Porém, o principal é que, em alguns momento, a série se aproxima de uma “amarração forte” ao fazer menções a momentos anteriores, o que causa confusão por parte do espectador casual (como exemplo, posso citar o momento em que Eduardo menciona o “caso Felipe” e a investigação de Luísa a respeito de um crime no 1o capítulo).

É muito bom ver uma série em que os personagens “evoluem” de forma consistente e coerente, porém acho que o roteiro deveria sim ter mais cuidado ao implementar as referências.

“3 MESES DEPOIS?” Hmmm…

Após muitos elogios sobre o realismo e a ausência de clichês, 9mm caiu em uma armadilha Global: com o intuito de amarrar nós e encerrar de forma impactante, a última cena se passou “3 meses depois”…

Para quem assistiu: reparem como seria interessante se o episódio acabasse logo após a conversa de Eduardo com o Informante, isto é, após que um atentado ocorresse a certo policial. Reparem como seria instigante manter o suspense sobre o rumo dos acontecimentos até a temporada de 2009.

Infelizmente, não foi essa a opção dos roteiristas; talvez temendo que não haja renovação para o ano que vem, o caminho trilhado foi o de encerrar de a forma folhetinesca de um dramalhão – reparem como a Festa de Natal do final apela para extrair emoção dos espectadores. Houve sim uma tentativa de apresentar a realidade – ato contínuo da série; porém, ao meu ver, um tentativa fracassada próxima de uma novela mexicana e que só foi salva pelo diálogo final e, óbvio, por todos os outros acontecimentos até o desfecho.

“- NÓS É POLÍCIA!”

É com esta frase que Horácio encerra a série 9mm São Paulo Ano 2008. Este diálogo, entre os melhores intérpretes e personagens (Horácio e Eduardo) traz a tona uma realidade melancólica e conformista, resultado de toda a série onde os policiais parecem dialogar contra a incapacidade de lutar contra o mundo tal como ele é: cruel e violento.

Finalmente, devo dizer que, apesar de achar que muito deve ser feito, já virei fã incondicional de 9mm São Paulo e que estou aguardando (e torcendo) ansiosamente a próxima temporada. Minhas críticas são sempre destinadas a melhoria desta que, ao meu ver, é a melhor série brasileira já lançada.

E vocês? O que acharam? Quais pontos positivos e negativos? Qual a melhor trama? O melhor desempenho de protagonista? Tem algo mais que deveria melhorar?

Espero estar de volta em 2009 para elogiar (e cornetar) os episódios de 2009 :)

A propósito, a FOX reprisará os 4 capítulos em sequência, a partir de hoje, toda terça-feiras, às 22:00. Para quem não assistiu, uma ótima oportunidade de ver e depois discutir aqui com a gente!
Clique aqui e veja como você pode ficar sabendo sempre que o Último Ato for atualizado.

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3 Comentários sobre “Série: 9mm São Paulo (1a Temp, 4o Episódio – Nós É Polícia)”

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