A ideia de criar este blog foi justamente fomentar a discussão saudável a respeito de assuntos cotidianos que comumente debatemos em nossas rodas de bate-papo a respeito de cultura em geral.

Em todos os momentos que escrevemos, seja em análises de filmes, seja em comentários sobre o novo cd do momento, estamos sempre colocando fatos de modo a instigar a discussão entre os participantes.

Foi assim, por exemplo, quando critiquei o livro “A Cabana” exatamente pelo que chamo de “ausência de qualidade literária”.

Eis que volto aqui justamente para colocar em pauta um assunto que também envolve religião e que promete ser bem polêmico.

“Milk – A Voz da Igualdade” levou o Oscar de melhor Ator pela atuação de Sean Penn interpretando um ativista gay e primeiro homossexual a ocupar um cargo político nos EUA.

No Brasil, Marco Ribeiro é o dublador oficial de Sean Penn.

Marco Ribeiro também é Pastor Evangélico e se negou a dublar Sean em “Milk” alegando que não se sentiria a vontade com o filme.

Assim que a Folha de São Paulo divulgou esta informação, milhares de blogs partiram para o ataque acusando o pastor de preconceituoso.

Eu fico realmente impressionado como as pessoas que sofrem ou já sofreram algum tipo de discriminação se colocam sempre como vítimas de certas situações. Parece que se tornam frágeis a ponto de viver do próprio trauma, sem jamais recorrer à razão.

Não estou dizendo que é fácil apagar tais traumas mas creio que falta, sim, um pouco de bom senso para os críticos de plantão.

Um antigo professor meu dizia que a melhor forma para pensarmos e entendermos alguns conceitos é através da utilização de exemplos. Vou tentar usá-los para ajudar na minha dissertação:

1 – Imaginem que sou o dublador oficial de Mickey Rourke mas me recusei a dublá-lo em “O Lutador” porque achei o filme demasiado violento.

O que isso significa? Sou preconceituoso contra os “atores” da luta livre? Sou preconceituoso contra esportes de contato físico?

2 – Agora, imaginem que dublei o Mickey Rourke na opção acima mas o próximo lançamento dele, “9 1/2 Semanas de Amor Parte 4″, não me interessou. Pedi para não dublá-lo.

E agora? Tenho preconceito contra amantes? Ou será que não gosto do sexo na meia idade? Ou ainda me repelem as continuações ?…

3 – Finalmente, imaginem o Mickey Rourke fazendo a refilmagem da “Gaiola das Loucas” e eu não topando por algum motivo qualquer (por exemplo, não gosto de fazer voz fina, não quero que meus amigos fiquem me imitando depois ou simplesmente não gosto de interpretar personagens delicados ou afeminados)

Hmm… tenho certeza que se isso acontecer, vou ser taxado de preconceituoso miserável.

Aliás, se qualquer um dos 3 itens mencionados acima acontecessem, acredito piamente que tanto o item 1 quanto o item 2 iam passar desapercebidos por todos mas o item 3, não!

Eu ia ser crucificado e pré-julgado. Pior ainda se eu tivesse alguma ligação formal com Deus como ser pastor ou coroinha da Igreja do bairro.

Aliás, por falar em “Gaiola das Loucas”, outro dia assisti este excelente filme. Minha namorada pediu que escrevesse um texto sobre ele aqui no Ultimo Ato.

Pergunta: eu escrevi? Não.

Julgamento: Sou preconceituoso!

Seguindo essa premissa, devo constatar que tenho preconceito contra:

- Naves espaciais e astronautas (não falei de “2001 – Uma Odisséia no Espaço”);

- Negros cegos (não escrevi sobre “Ray”),

- Mulheres bonitas e casos amorosos (cadê meu texto sobre “Closer”?)

Acho que já basta para demonstrar o que queria provar no começo do texto. A vitimização das pessoas que sofrem preconceitos. Se faço ou deixo de fazer alguma coisa – contanto que não agrida o próximo; isso se refere a minha IDEOLOGIA e não ao que DISCRIMINO ou deixo de DISCRIMINAR.

Porém, é fácil fazer polêmica para novamente trazer a tona o quanto somos vítimas da sociedade, não é?

Pior, no caso do pastor, o fato de sua IDEOLOGIA se confundir com sua profissão e convicções.

O fato dele ser um homem religioso deve limitar suas escolhas profissionais?

E se eu pedir para ele dublar o Sean Penn de graça e ele não o fizer? Estaria ele cometendo algum pecado?

Reparem que ele não ofendeu o personagem de Milk, apenas se negou a fazer o que não queria fazer. Ora, ele é obrigado a fazer algo apenas porque a sociedade prega que isso é “politicamente correto”?

E a liberdade de escolha? Não estariam sendo preconceituosas as pessoas que o julgam por ter escolhido não dublar?
Não estariam sendo contraditórios os gays que o acusam por ter usado de sua liberdade de escolha – a mesma que eles tanto lutaram (e lutam) para conseguir?

Mais que isso, Ribeiro já dublou um personagem homossexual em “Os Simpsons”. Ué, mas ele não é preconceituoso? Será que ele não tem preconceito contra desenhos animados? É isso?

Por outro lado, há sim um preconceito enrustido nos próprios “juizes” da situação. Veja, por exemplo, a declaração da diretora de dublagem ao justificar a ausência do pastor:

“Não é que [Ribeiro] tenha algo contra homossexuais, é que as pessoas ao seu redor confundem sua profissão de ator com o lado religioso.”

O medo do pastor é uma perseguição em seus cultos. Perseguição realizadas por falsos moralistas dentro da própria Igreja.

Reparem no dilema do pastor:

- ao não dublar, evita o julgamentos hipócritas em sua Igreja mas ganha duras críticas de defensores de movimentos conhecidos como minorias (que nem são mais minorias, diga-se de passagem);

- se dublasse, ganharia apoio de tais minorias (na verdade, não ganharia nada pois seria classificado com o chavão “não fez mais do que a obrigação”) mas seria execrado por muitos falsos crentes moralistas

É um grande paradoxo que nos leva a conclusão desse texto, sobre o quão hipócritas e falsos moralistas as pessoas são ao julgar indivíduos por atitudes isoladas.

São hipócritas aqueles que criticam a decisão do pastor de não dublar.

São hipócritas aqueles que deixariam de ir ao culto do pastor caso ele dublasse.

E acreditem, infelizmente, são a maioria.

Se não acreditou, talvez seja interessante ler alguns comentários sobre esse assunto.

Aqui, há mais comentários que mostram o “preconceito dentro do preconceito” (reparem como algumas pessoas que “julgam” são tão preconceituosas quanto o suposto julgado, comparando até o nível cultural do pastor à sua opção por ser evangélico).

Me lembrei de uma entrevista de Isabeli Fontana em um programa da Hebe. Na ocasião, a modelo disse que não desejava ter um filho gay e também foi duramente criticada. Eis um texto que ilustra o que tentei expressar aqui contrapondo desejo x aceitação.

Finalmente, devo dizer que o Ultimo Ato não é a favor dos gays. Nem contra.

O Ultimo Ato não é a favor dos evangélicos. Nem contra.

O Ultimo Ato sequer é a favor dos dubladores. Tampouco, contra.

O Ultimo Ato é a favor da liberdade de expressão e da discussão saudável.

E, sim, somos totalmente contra posições moralistas, extremistas e hipócritas.

Clique aqui e veja como você pode ficar sabendo sempre que o Último Ato for atualizado.

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8 Comentários sobre “Milk: “A Voz da Discórdia” ou seria “A Voz da Hipocrisia”?”

  • Eduardo comentou em 27 de fevereiro de 2009 às 16:56 :

    CLAP CLAP CLAP!!!!!!!

    Deixarei em breve o meu comentário e meu ponto de vista… (estou no trabalho!!! rs). Mas apenas para começarmos essa discussão, acredito que isso tipo de preconceito e hipocrisia (infelizmente) sempre terá em nossa sociedade… me incluo, pois já errei muitas vezes em julgar alguma atitude ou alguma pessoa… mas enfim, volto depois… : )

  • Letícia comentou em 28 de fevereiro de 2009 às 12:34 :

    Muito bom o texto! Achei muito interessante tbem os links com as opiniões sobre o assunto, difícil de acreditar que ainda existam pessoas com a cabeça tão fechada, tão pequena. Toda essa discussão me fez pensar que devemos ser mais tolerantes com os intolerantes, pq como o Du falou, isso sempre existirá em nossa sociedade.

  • Alexandre Rivaben comentou em 03 de março de 2009 às 18:19 :

    Infelizmente isso sempre existirá mesmo. O que mais me surpreende é o preconceito dentro do preconceito, o “paradoxo do preconceito”…

    Abraço Du e obrigado pelo comentário!

  • Alexandre Rivaben comentou em 03 de março de 2009 às 18:20 :

    Oi minha linda :P

    O mais interessante de tudo é que muitas das pessoas com a cabeça fechada são EXATAMENTE as pessoas que não deveriam ser assim. O que vejo é muito preconceito por parte de quem já sofreu com atitudes do genero! Triste!

    Comente mais! :)

  • Ricky Dbergh comentou em 09 de março de 2009 às 10:50 :

    Bom… O assunto é polêmico e a gente costuma defender o que acreditamos ou vivemos com mais força de que outros pontos de vista, mesmo que válidos para determinados contextos.
    Eu não estou aqui pra julgar o “profissional” citado no texto, mesmo porque se fosse falar seria “intolerante”, pois argumentaria pela ótica que tenho dos evangélicos (crentes ou sei lá o que), ativistas gays, anti-gays, católicos, pastores, travestis, etc etc…
    Creio existir uma linha que separa a intolerância com o “não gosto” ou “não concordo”… Mas a linha, na maioria das vezes, fica invisível e até quem ataca o “paradoxo do preconceito” fica fadado a ser intolerante.
    Procuro ser único, não parte de um grupo que se diz “GLS” “Liberal” “Religioso”, “Cristão”, “Ateu”… Mas tem coisas que concordo ou não concordo e NESTE CASO acho que todos tem direito de escolher ou não se vai fazer um trabalho, porém “AXO” que tem preconceito ai…

    É isso…
    Parabens pelo texto.

    Abraço.
    Ricky

  • Alexandre Rivaben comentou em 13 de março de 2009 às 18:05 :

    Fala Rick,

    Value pelo comment…

    O que acho é que a mídia já “cai matando em cima de qualquer pessoa que faça algo “politicamente incorreto”. Se ele tivesse se negado a dublar o Mickey Mouse, ninguem ia falar nada… mas como é o Milk…

    Acredito que a maior crítica do meu texto é essa, não se trata de analisar se houve preconceito ou não por parte do Pastor mas sim o preconceito por parte das pessoas que o julgaram…

    Abraçao!

  • Anônimo comentou em 09 de abril de 2010 às 11:14 :

    Eu concordo até certo ponto com o texto. Mas olhemos para nós mesmos e perguntemos: é possível não julgar? A todo momento estamos fazendo isso, o próprio autor do texto critica o julgamento, mas ele mesmo acaba julgando (São hipócritas aqueles que deixariam de ir ao culto do pastor caso ele dublasse. – parágrafo 44), isso seria contradição?
    Eu me pergunto, será preconceito não é julgar pelo grupo (ou entidade) ao qual a pessoa faz parte, e não julgá-la, a própria pessoa? Vejo que os julgamentos estão em nossas vidas a todo momento e todos os comentários aquiparecem eforçar o que querem contrariar e acabam julgando.
    Na verdade, acredito que preconceito é quando o seu julgamento o faz oprimir, retaliar, enfim, prejudicar concretamente o outro. É impressionante e (talvez) quase inevitável, que quando discutimos sobre preconceito e julgamento estamos reforçando aquilo que queremos provar contra e as opiniões sempre julgando.
    Por fim, gostaria de reforçar essa indagação: O que é preconceito? É quando simplesmente julgamos? Ou será que quando julgamos e prejudicamos? Pois você pode abster-se de julgar, mas não importa, você apenas não externará seu julgamento pois ele está aí em suas bases e valores.

  • wagner comentou em 20 de junho de 2010 às 04:43 :

    Ficaria entre a cruz e a espada Marco Ribeiro os fanaticos religiosos de um lado,e o extremismo gay de outro,não tinha como escapar.

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