NOTA: 8 / 10
Direção: Tom Tykwer
Roteiro: Tom Tykwer,Andrew Birkin,Bernd Eichinger
Elenco: Rachel Hurd-Wood (Laura Richis), Alan Rickman (Antoine Richis), John Hurt (Narrador), Karoline Herfurth, Dustin Hoffman (Giuseppe Baldini), Michael Smiley (Porter), Perry Millward (Marcel), Ramón Pujol (Lucien), Ben Whishaw (Jean-Baptiste Grenouille).

Sempre acredito que, ao assistir uma adaptação de obra literária para o cinema, muito se perde em relação ao seu original, o livro. Porém, algumas vez sou surpreendido por roteiros bem escritos que, se não conseguem reproduzir o grande charme da “imaginação das letras”, se aproximam e muito de repetir as sensações causadas pela leitura. Este é o caso deste “Perfume – A História de um Assassino”, escrito e dirigido por Tom Tykwer (que também dirigiu “Corra Lola, Corra” o qual sou fã de carteirinha), adaptado do excelente romance de Patrick Süskind.
“Perfume…” se inicia com uma sutileza ímpar enquanto encontramos nosso protagonista, Jean-Baptiste Grenouille (interpretado de forma muito convincente pelo jovem inglês Ben Whishaw), encarcerado: enquanto toda sua face está na escuridão, seu nariz parece brilhar e é nele o foco da mudança de cena que nos leva ao flashback com a narração de sua vida, a partir do seu nascimento bizarro – em um fétido mercado de peixes, onde é literalmente chutado pela mãe. A seguir, é enviado para um orfanato onde cresce e é vendido como um escravo quando jovem.
Jean-Baptiste não é um menino como os outros: é um indíviduo com um sentido olfativo absurdamente fora do comum (por isso o foco inicial em seu nariz). Tom Tykwer, de forma genial, acerta ao realizar nas telas uma figura bastante utilizada na literatura: a sinestesia que é relação entre planos sensoriais diferentes. Na impossibilidade de representar o cheiro de forma cinematográfica, a opção foi utilizar a fotografia e a montagem. Assim, enquanto todos os cenários se apresentam em cores pálidas, as figuras de “cheiro importante” (frutas, folhas, animais, perfumes, etc) aparecem destacadas em cores vivas (como as frutas em determinada cena e as rosas em outra); a filmagem também é realizada sempre no sentido de valorizar planos detalhe de pontos relacionados ao odor (por exemplo, no caso das mulheres que tanto irão facinar Grenouille, os planos sempre destacam o pescoço, o cólo, as mãos: lugares normalmente associados ao perfume feminino) , finalmente, de forma sutil, a iluminação também contribui nesta perspicaz solução visual (na visita ao laboratório de Baldini, por exemplo, os objetos parecem adquirir mais luz à medida em que Jean-Baptiste direciona seus olhos/nariz para eles).
Seguindo Jean-Baptiste e seu sentido aguçado, encontramos o Mestre Baldini (Dustin Hoffman, mediano no papel), um perfumeiro decadente, que toma o jovem como seu funcionário sob o seguinte contrato: Jean-Baptiste deve criar os perfumes e Baldini ensiná-lo a armazenar fragâncias. Neste momento, o garoto já está encantado com o maior de todos os perfumes: o aroma feminino que deseja guardar a qualquer custo.
Após descobrir que Baldini não poderia ensiná-lo mais nada, parte para Grasse, a “cidade dos aromas”. No caminho, descobre mais uma de suas peculiaridades: não possui cheiro. Interessante como a metáfora sobre sua insignificância, representada pela ausência do próprio odor, funciona perfeitamente bem aqui, alavancando o personagem em sua missão: o desejo de reconhecimento, de significado perante a vida. Este significado ganhará uma conotação religiosa na última parte da trama.
Portanto, até este ponto, temos uma trama que se limita a uma complexa análise do personagem de Jean-Baptiste: um sujeito sem nenhuma habilidade social e desprovido de qualquer emoção que não as geradas por seu olfato – até suas memórias são associadas a ele. Neste aspecto, a opção por um narrador em off (John Hurt que também narrou Dogville e Manderlay) que se limita apenas a observar o que o protagonista faz, sem emitir qualquer opinião ou julgamento, se faz acertada pois atinge a dois objetivos de uma só vez: permite uma maior mensuração do perfil psicológico do protagonista e ainda serve de metáfora para consolidar o quão vazio de sentidos ele é, sendo incapaz de traduzir em palavras a sua própria história.
A chegada de Grenouille a Grasse conduz ao prologamento de seus experimentos que implica em matar as mulheres que lhe servem de cobaia. É notado o fato de que nosso protagonista não assassina as vítimas por motivos sexuais explícitos já que sequer as toca, limitando-se apenas a cheirá-las. Entrentanto, a retirada do perfume feminino pode ser encarada simbolicamente como o fim da pureza de cada mulher; mais que isso, pode ser considerado uma representação do amor e também de suas almas.
O desfecho dos assassinatos em série nos leva ao final do flashback com a prisão de Jean-Baptiste após a morte de 13 mulheres e a formulação do perfume perfeito. Finalmente, chegamos à sua sentença onde o roteiro consolida uma outra interpretação simbólica para a trama, desta vez, religiosa: uma grande alegoria da Paixão de Cristo. Todos as figuras estão presentes: o povo enfurecido, o carrasco, a cruz, a chegada de Jean-Baptiste ao lugar que será sacrificado e, no ato final, a sua “Ascenção”.
Esta alegoria enriquece o filme principalmente por gerar discussões a respeito dos símbolos de fato: afinal, seria Grenouille a representação de Cristo? Na realidade, de tudo que acompanhamos até o momento, é mais fácil associá-lo a um filho do Diabo – lembremo-nos: Grenouille não tem cheiro e rouba as almas/amor das pessoas com quem convive (além das mulheres as quais retira seus perfumes, a narrativa também enfatiza a morte de todos aqueles que convivem com o jovem e são abandonados ou o abandonam). De certa forma, é impossível olhar para o protagonista e vê-lo como um Cristo, apesar das referências, parece-me que o roteiro brinca com a idéia do surgimento de um herdeiro do Mal e o entrega ao mesmo destino de Cristo – a cruz.
Ao contrário de Jesus, Grenouille, usando o perfume, se salva da morte e ainda induz o povo ao pecado: alguns podem argumentar que a cena final é o ato sublime de amor, o que fortaleceria ainda mais a alusão a Cristo; contudo, prefiro enxergar que a associação final tem mais a ver com o pecado da luxúria, fato que o conectaria ainda mais ao oposto de Deus: o filho do Mal.
Para finalizar, Jean-Baptiste, acaba ironicamente desistindo da humanidade e de si mesmo pois se sente incapaz de amar e ser amado (“Que se dane o mundo. O perfume. Ele mesmo.”), entrega-se, portanto, à morte que, se por um lado pode ser comparada a Ascenção, por outro pode muito bem ser enxergada como a perpetuação do mal de sua existência – já que as pessoas literalmente se alimentam de sua própria carne (perceba também, como, na cena final, a sua insignificância volta a ser sutilmente mencionada quando todos caminham pelo pátio onde foi morto sem notarem sinal algum de sua ínfima existência).
O longa se consagra, portanto, como um filme extremamente visual que constrói um personagem complexo e se entrega a vários simbolismos e referências religiosas – principalmente no 3º ato. Tal desenvolvimento torna a experiência cinematográfica mais enriquecedora pois nos permite acompanhar a trajetória de um personagem ímpar, seguir os passos de um serial-killer e/ou divagar sobre a simbologia insinuada durante toda a narrativa.
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Marcadores (Tags): Ben Whishaw, Dustin Hoffman, John Hurt, Na Poltrona, Perfume - A História de um Assassino, Tom Tykwer
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